O BRICS é um fórum intergovernamental cada vez mais relevante e assertivo. Formado para reunir grandes mercados emergentes, o fórum ganhou maior proeminência geopolítica, apesar de suas diferenças internas. O Brasil é um dos membros fundadores e seu nome batiza a inicial do BRICS e é ainda mais importante que atentemos para o que foi falado na última cúpula sobre a questão climática.
A declaração da XVI Cúpula do BRICS, em Kazan, não serviu de plataforma para os ambientalistas extremistas que vem encontrando aliados nos Estados Unidos, na União Europeia, na ONU e até mesmo no governo brasileiro (mas que nesse caso não pesaram suas mãos), que impõem a responsabilidade da transição energética para os países em desenvolvimento. Por uma via distinta, a declaração se posicionou contra as sanções unilaterais, contra a securitização da pauta climática e pelo respeito às capacidades de cada país para comportar transformações. A abordagem climática do documento produzido em Kazan pode ser resumida em alguns pontos principais, divididos nos parágrafos a seguir. O compromisso com o respeito à soberania nacional e a crítica a medidas unilaterais são elementos centrais.
Este parágrafo reforça o compromisso dos países do BRICS com os princípios do UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), do Protocolo de Kyoto e do Acordo de Paris. Eles reiteram a necessidade de honrar o princípio de "responsabilidades comuns, porém diferenciadas" (CBDR-RC; Common but Differentiated Responsibilities and Respective Capabilities), e criticam medidas unilaterais defendidas sob pretextos ambientais. Ao invés de sanções, o texto defende o fortalecimento da cooperação e a coordenação multilateral entre os países. O trecho também destaca a importância dos recursos financeiros, transferência de tecnologia e capacitação para a adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.Tanto a União Europeia quanto os EUA têm mostrado uma tendência em flexibilizar o princípio da CBDR-RC, pressionando para que todos os países, independentemente de seu estágio de desenvolvimento, assumam compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa, com uma tendência pela uniformização desses compromissos.
O texto reforça que a UNFCC e a COP como fóruns legítimos para a discussão de questões climáticas, saudando as cúpulas que foram realizadas no Egito e nos Emirados Árabes, e apoiando a liderança do Brasil na COP 30. O parágrafo também expressa “profunda preocupação” com a associação de temas de segurança com o clima. Atualmente, tanto os Estados Unidos como a União Europeia vêm colocando os problemas climáticos como questões ligadas à segurança nacional e defesa.
Aqui, o BRICS se posiciona contra medidas unilaterais, como mecanismos de ajuste de fronteira de carbono (CBAMs; carbon border adjustment mechanisms) têm uma natureza punitiva e protecionista sob a justificativa de preocupações ambientais. A UE, por exemplo, está implementando um Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono (CBAM) que impõe taxas sobre as importações de produtos com alto teor de carbono. O BRICS se posicionou contrário, portanto, o uso de sanções para pressionar países a adotar padrões ambientais internacionais.
O parágrafo 84 celebra a formação da Plataforma de Cooperação em Pesquisa em Energia do BRICS. No seu parágrafo 85, a declaração reconhece o papel dos mercados de carbono na ação climática e promove a cooperação para desenvolver esses mercados entre os países BRICS. O parágrafo 87 destaca a necessidade crítica de projetos ativos de adaptação climática que vão além da pesquisa para soluções práticas, com foco em tecnologias de baixa emissão, financiamento sustentável e cooperação internacional para combater os impactos das mudanças climáticas de forma inclusiva e equitativa.
Editorial
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